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Tudo começou em Outubro de 1984, quando os sócios
fundadores Renato Martins e Redson, guitarrista e vocalista
da banda Cólera, resolveram montar um estúdio
de gravação que serviria para ensaio e gravação
das bandas punks da época, inclusive o Cólera.
Chamaram um amigo para sócio, Marcos Seara Araújo,
que também se identificava com o som punk, tendo ele
saído do selo seis meses depois. Após uma detalhada
pesquisa de preços de equipamentos, viram que a quantia
necessária para se montar tal estúdio seria
inviável. Decidiram então, gravar o Cólera
no estúdio Gravodisc da Continental. Em Dezembro desse
ano, mandaram prensar 1.000 cópias daquele que seria
o primeiro disco do selo Ataque Frontal.
Em Janeiro de 1985, foi lançado o primeiro LP do Cólera,
"Tente Mudar O Amanhã". Dois meses depois,
foi feito o show de lançamento do disco no Teatro Lira
Paulistana, cultuado ponto da cena alternativa na época.
O evento ocorreu nos dias 15, 16 e 17 de Março, com
algumas bandas amigas sendo convidadas para tocar junto.
A programação foi essa: Dia 15 - Juízo
Final, com a participação especial da banda
baiana, Homicídio Cultural, tocando 3 músicas
com o Redson na bateria. Dia 16 - duas bandas foram convidadas,
Vírus 27 e Lobotomia, que estava começando.
Dia 17 - os já famosos Ratos de Porão, numa
rara apresentação como trio, pois o João
Gordo havia deixado a banda após o 1º LP, tendo
voltado para o RDP para as gravações da coletânea
"Ataque Sonoro" e não saído mais até
hoje. Os shows foram todos gravados em fitas cassetes, com
excessão do Juízo Final, e a gravação
do dia 17 resultou no segundo lançamento do selo, o
LP "Ao Vivo" com Cólera e Ratos de Porão.
Esse foi o segundo lançamento do selo, tendo as primeiras
1.000 cópias em vinil verde. A idéia de lançar
esse disco foi do Renato após verificar que a fita
cassete scotch em que estava gravada, tinha uma qualidade
razoável. Esse LP viraria uma raridade alguns anos
depois, pois seria retirado de catálogo devido as desavenças
criadas entre ambas as bandas. Algumas dessas gravações
em cassete, serão colocadas como faixas extras nos
CDs do Ataque Frontal, como é o caso do CD "Ataque
Sonoro", que tem 2 músicas extras do Cólera,
Lobotomia, Vírus 27 e Homicidio Cultural.
O LP "Sub" tinha sido lançado originalmente
pelos Estúdios Vermelhos, selo anterior do Redson,
em 1983. Na versão original a capa tinha 3 erros graves.
O primeiro era a abertura da capa, feita pelo lado contrário.
O segundo era a cor vermelha em outro tom, diferente do planejado.
Por fim, as músicas da banda Psykóze e Ratos
de Porão tinham os nomes diferentes do vinil. O Ataque
Frontal reprensou o disco como era para ter sido concebido
originalmente, sendo as primeiras 1.000 cópias com
vinil vermelho.
A gravadora seguia a todo vapor. Nessa epóca começou
a ser planejada uma coletânea com várias bandas
punks que estavam se destacando na cena. O disco teria 10
bandas, fato inédito até então, visto
que as outras duas compilações punks brasileiras
tinham 3 bandas - "Grito Suburbano" - e 4 bandas
- "Sub".
Em Outubro de 1985 saiu a coletânea "Ataque Sonoro",
com Vírus 27, Ratos de Porão, Cólera,
Lobotomia, Garotos Podres, Grinders, Armagedom e as cariocas
Auschwitz, Desordeiros e Espermogramix. O Ataque Frontal fecha
o ano com 4 Lps lançados, fato sensacional, em se tratando
de um selo independente de punk no Brasil.
Começa 1986. O Cólera grava seu segundo LP,
"Pela Paz Em Todo Mundo", que se tornaria o maior
êxito do Ataque Frontal. As primeiras 1.000 unidades
se esgotaram em exatos 2 dias, sendo vendidas até as
100 cópias que estavam reservadas para a imprensa e
promoção.A segunda prensagem, mais 1.000, acabou
em 5 dias. No total, esse disco vendeu em torno de 12.000
cópias. Se não fosse a demora da entrega da
prensagem, com certeza teria vendido muito mais. Se tornou
o segundo maior disco punk em vendagens, só sendo superado
pelo 1º disco dos Garotos Podres, distribuído
pela Lup Som, via BMG Ariola.
Nessa mesma época, o Redson teve a idéia de
gravar uma banda de um estilo um pouco diferente. A banda
Varsóvia do ABC paulista, que se inspirava em Joy Division,
e tinha a música Noites estourada nas rádios
rock daquela época, a 97 FM de Santo André e
a 89 FM, que aquela altura dava uma tremenda força
para a cena alternativa. As primeiras 1.000 cópias
se esgotaram muito rapidamente, sendo que as lojas Wop Bop
Discos e Bossa Nova, do centro de São Paulo foram responsáveis
pela venda de quase metade dessa tiragem. Como 1986 foi o
ano do Plano Cruzado, tudo se vendia que nem água,
e por isso as prensas da Gravadora Continental estavam lotadas
e para se prensar um disco demorava no mínimo 3 meses.
Aproveitando que o disco ia vendendo bem, chegando na casa
das 3.000 cópias vendidas, foi decido fazer mais 2.000.
Foi o maior erro do selo, pois quando essas cópias
ficaram prontas, as vendas tinham parado e se tornou o único
e grande encalhe da história do Ataque Frontal.
Aproveitando
a boa fase de vendas e com a grana entrando, foram colocadas
duas bandas do ABC paulista no estúdio Vice-Versa,
com produção do Redson, para a gravação
de seus respectivos discos. A banda Kães Vadius foi
descoberta por Renato através de um anúncio
do jornal Rocker do ABC. Foi feito um primeiro contato com
George G., guitarrista deles, e após uma audição
da fita demo, foram imediatamente contratados, pois a AF queria
expandir seus lançamentos com estilos diferentes dentro
do cenário alternativo e o Psychobilly com certeza,
era um desses estilos. O disco deles contou com a participação
especial de duas figuras ilustres da cena musical, Kid Vinil
que dividiu os vocais com Hulk numa música e André
Christovam na guitarra em outra.
A outra banda era o Grinders, pioneiros no estilo skate-punk
e um dos destaques da coletânea "Ataque Sonoro",
que arrebataram vários fãs e já mereciam
um LP próprio. Aliás, só para citar,
essa era uma das intenções no lançamento
dessa coletânea, dar projeção e revelar
novas bandas.A outra banda era o Grinders, pioneiros no estilo
skate-punk e um dos destaques da coletânea "Ataque
Sonoro", que arrebataram vários fãs e já
mereciam um LP próprio. Aliás, só para
citar, essa era uma das intenções no lançamento
dessa coletânea, dar projeção e revelar
novas bandas.
As únicas "famosas" na época, eram
o Cólera e o Ratos de Porão, que já possuiam
LPs individuais, e depois desse disco, quase todas as outras
saíram em discos próprios, como foi o caso do
Grinders pelo Ataque Frontal, Desordeiros e Vírus 27
pela Devil Discos, Lobotomia pela New Face Records, Armagedom
pelo selo deles mesmos,Garotos Podres pela Rocker e depois
Lup Som.
A meta foi alcançada e com mais esses dois discos,
a AF encerra 1986 com 4 lançamentos novamente.
Em Março de 1987, Redson parte com sua banda para uma
longa e bem sucedida turnê pela Europa. O AF ajudou
a financiar boa parte das passagens do Cólera que ficou
5 meses excursionando pelo Velho Continente. Durante o período
de ausência do sócio, Renato tocou sózinho
os projetos do selo. Uma das prioridades era a melhoria da
distribuição, que até então não
contava com a venda para atacadistas. Com mais esse objetivo
alcançado e com o dinheiro dessas vendas, várias
dívidas foram pagas e novos projetos colocados em andamento.
Um deles era o primeiro lançamento internacional do
AF: a banda finlandesa Massacre. O álbum mostrava uma
fase da banda entre 1984 e 1986 e as faixas foram tiradas
de dois Eps e uma fita demo, sendo lançado em um único
LP apenas no Brasil. Esse disco teve toda a parte visual criada
por Adherbal, guitarrista do Lobotomia. O detalhe é
que a própria banda exigiu que ele desenhasse a capa.
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O
outro projeto era a gravação de uma nova coletânea.
A mesma fórmula do "Ataque Sonoro" foi usada,
6 novas bandas sem disco próprio, Não Religião,
Pupilas Dilatadas, Skárnio, Repúblika, Os Laranjas
e Indecisus, e só uma consagrada, Olho Seco, foram
escolhidas para o "Contra Ataque". Para produtor
foi convidado Clemente, dos Inocentes, que já se aventurava
pelos estúdios como produtor. O resultado foi completamente
satisfatório, sendo este o disco mais bem elaborado
técnicamente da gravadora até então.Em
Agosto, com a volta do Cólera da Europa, a banda teve
uma exposição muito boa na mídia, chegando
a fazer parte da entrevista central da revista Bizz, dividindo
as atenções com as estrelas dos Paralamas do
Sucesso. Para aproveitar essa repercussão, o Renato
queria que fosse lançado um disco ao vivo com as várias
gravações dos shows pela Europa. Começaram
então, as primeiras desavenças entre os sócios,
porque o Redson queria lançar um EP de Natal e era
contra o disco ao vivo. Mais tarde foi explicado o porque,
pois seria lançado pelo seu próprio selo após
sua saída da AF. Ele vence a parada e a banda entra
no estúdio Guidon em Setembro para a gravação
das 4 músicas do tal EP.
O título do disco? "É Natal!!?". Esse
disco teve uma vendagem muito fraca, pois devido ao atraso
na prensagem acabou saindo uma semana após o Natal
e além do mais, era um EP, e as lojas no Brasil não
estavam acostumadas com esse tipo de produto e o vendiam pelo
preço de LP, tornando-o caro para o público
consumidor. Assim, a AF encerra 1987 com só 3 lançamentos.
A saída de Redson do selo era evidente e tal fato se
concretizou em 1988. Na partilha dos bens da firma ficou estipulado
entre ambas as partes que o valor de venda dos 2 LPs e do
EP do Cólera, era o mesmo do restante dos outros títulos.
Então a AF foi dividida e o nome ficou com o Renato,
pois foi ele quem o criou. Após isso, Redson montou
outro selo, chamado A.Indie, que durou poucos meses e na sequência
ele vendeu todos os direitos fonográficos dos discos
do Cólera, incluindo o "Sub", para a Devil
Discos, que os relançou todos em vinil.
Logo após a divisão da firma, a AF continua
e os Kães Vadius entram no estúdio Nosso Estúdio
de 24 canais para a gravação do EP "Delirium
Tremens". Foi novamente escolhido o formato EP, mas dessa
vez foi por motivos econômicos, pois a gravadora estava
sem verba. A banda havia ganho essas 8 horas de estúdio
como parte do pagamento de um cachê para um show. Foi
chamado André Christovam para a produção
técnica e a qualidade do disco ficou absurdamente boa.
Esse disco teve uma aceitação relativamente
boa, pois os Kães Vadius tocavam bastante e ajudavam
a divulgar o disco com uma excelente performance psycho. Fizeram
dezenas de apresentações nos Estados de São
Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Santa
Catarina.
Ainda dentro de 1988 foi organizado um show do programa alternativo
Independência Ou Morte! da 89 FM, com as bandas Grinders,
Não Religião, Lobotomia e Cólera. Esse
show seria gravado ao vivo e lançado em LP com o nome
do programa. Foi alugada uma unidade móvel, o Estúdio
Móvel e gravado em 24 canais no dia 20 de Novembro
no Dama Xoc em São Paulo. As mixagens foram feitas
durante 5 dias de Janeiro de 89 no estúdio Gravodisc
por Haroldo Tzinulnik, que também produziu o disco,
e foram marcadas com antecedência e mesmo sabendo da
data, Redson não compareceu ao estúdio para
as mixagens das faixas do Cólera, que foram feitas
sem a sua presença, pois o estúdio não
tinha mais horários disponíveis. Contrariado,
ele reclamou da mixagem final e após uma decisão
irrevogável da AF, as faixas da banda foram excluídas
do LP "Independência Ou Morte!" lançado
em Março. Vale citar que essas gravações
foram as melhores feitas pela banda até hoje e a fita
se perdeu alguns anos depois. Outro detalhe desse disco, é
que ele foi inteiramente gravado em vídeo para lançamento
simultâneo, só que a produtora de vídeo
contratada aumentou abusivamente o preço acertado para
a edição e a AF desistiu do projeto. Provavelmente
essas imagens devem estar jogadas em alguma prateleira até
hoje, se é que não foram apagadas. Foi uma pena
porque as imagens ficaram excelentes, pois foram filmadas
com 2 câmeras profissionais e com várias cenas
de bastidores e todas as bandas ao vivo.
Mantendo os contatos internacionais em dia, Renato fecha um
acôrdo com Dave Dictor, vocalista da banda M.D.C. da
Califórnia, para lançamento de 2 LPs deles em
terras brasileiras. Desse modo, foi lançado aqui o
LP "Millions of Dead Cops", para muitos um dos melhores
discos de hardcore da história. Era previsto também,
o lançamento do disco "Multi-Death Corporation",
que infelizmente não chegou a ocorrer.
O selo Sulcos Suicidas fez uma parceria com a AF para lançamento
do compacto de 7" da banda Pupilas Dilatadas, que havia
participado do "Contra Ataque". Eles bancaram a
gravação do disco, que teve a produção
do então desconhecido Carlos Eduardo Miranda, e a AF
arcou com todos os outros custos. Foram feitas 1.000 cópias
desse compacto, contando com todas as dificuldades da vendagem
desse formato de disco. Quando a AF fechou o escritório
e depósito na Rua Barão de Itapetininga, centro
de São Paulo, foram deixadas guardadas umas 400 cópias
do compacto e mais alguns fotolitos no depósito do
edifício, que meses mais tarde foram jogados fora inavertidamente
pelo zelador.
Dessa forma em 1990 se encerrou a história da AF, um
selo independente que tentou sobreviver no Brasil, com todas
as dificuldades da época. |
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